PARASHA KI TAVO

CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS - Estudo da Parasha da Semana – Cristãos estudando as fontes judaicas
KI TAVO – Dt 26,1 – 29,8 - Rabbi Adin Even-Israel Steinsaltz - Talks on the Parasha. Jerusalem: Shefa/Maggid Books, 2015: 401- 405.

Ki Tavo

Diferentemente da Parashat Ki Tetzeh, que era abundante em leis, Parashat Ki Tavo contém poucos preceitos. Ao contrário, Parashat Ki Tavo está cheia de maldições.

O Talmud afirma, seguindo as consequências dessa passagem: “Estes são os que se postarão para abençoar o povo... e estes são os que se postarão para a maldição” (Dt 27,12-13), que no Monte Garizim e no Monte Ebal tinha duas fórmulas. Esses que se postavam para a maldição pronunciaram as maldições como aparecem na Torah, e aqueles que se postavam para a bênção pronunciaram na fórmula oposta: “Abençoado é aquele que não faz ídolo esculpido ou fundido”, “abençoado é aquele que não desonra seu pai e sua mãe”, e assim por diante (Sota 32a).

Se a “fórmula de bênção” foi de fato pronunciada, por que então a Torah cita somente as maldições e não usa a linguagem positiva das bênçãos? Por que a fórmula de bênção está somente implícita e não está escrita na Torah explicitamente? Enquanto seja verdade que a Torah geralmente tende a ser concisa, uma linguagem positiva poderia ainda ter sido usada, especialmente à luz da percepção do Talmud que a Torah vai longe, sempre empregando vários modos de dizer uma coisa, de modo a tornar clara, numa linguagem apropriada (Pesahim 3a).

MUITO BOM

É muito mais simples criar uma maldição do que criar uma bênção. Isso não é porque as pessoas sejam geralmente más, mas porque no momento em que algo diverge da sua ordem normal, já é uma maldição. Normalmente, existe mais uma base para maldições do que para bênçãos, porque somente o estado ideal é considerado uma bênção. Se está muito quente, ou muito frio, ou muito chuvoso, se não está perfeito, então é uma maldição. Então, a margem para o ideal é muito estreita, e se as condições se inclinam, mesmo que ligeiramente para um lado, já não é ideal. Como afirma o Talmud, “Seu povo... não pode suportar nem muitas coisas boas nem muito castigo” (Taanit, 23a). Mesmo que alguém receba mais e mais de algo, ele não será necessariamente melhor.

O pobre diz, “não me dês nem riqueza e nem pobreza, concede-me o meu pedaço de pão” (Pr 30,8). Quer dizer, tanto um pobre quanto uma pessoa rica enfrentam problemas e provações únicos relacionados à sua posição. Não se deve lutar para obter o máximo de prosperidade, porque isso não é a garantia de que a situação vai ser verdadeiramente melhor. De fato, após um pouco de muita prosperidade, isso deixa de ser agradável; após um pouco mais, isso se torna desagradável; e finalmente, isso se torna doloroso. Em qualquer coisa que diga respeito aos prazeres físicos deste mundo, existe um estado no qual quanto mais alguém recebe, mais desagradável se torna.

À luz disso, existe mais fundamento para maldições do que para bênçãos em nosso mundo. Mas apesar disso, temos uma reivindicação poderosa a fazer diante de Deus quando rezamos por bênção: Por enquanto, todas as maldições descritas através da Bíblia – aquelas descritas em Levítico, em Deuteronômio e em Ezequiel – se cumpriram todas. Eu conheci uma mulher que foi a única menina que sobreviveu ao Gueto Vilna. Ela e sua família estavam muito longe de uma fé religiosa. Ela me disse que foi movida a voltar a uma maior observância religiosa quando leu a seção sobre as Advertências na Parashat Bekukkotai; ela se deu conta de que tudo que estava escrito lá se tornou verdade. As pessoas não pensam ou acreditam que essas coisas podem acontecer, e o fato de que todas as maldições se tornaram reais ocasionou nela a experiência de uma mudança de coração. Enquanto todas as maldições parecem terem sido realizadas, contudo, nós ainda continuamos esperando pelo cumprimento de muitas bênçãos.

O Talmud nos conta que Rabbi Akiva e seus colegas uma vez viram uma raposa saindo do lugar do Santo dos Santos, e Rabbi Akiva riu, dizendo: “Contanto que a profecia de Uriah – “Por isso, por culpa vossa, Sião será arada como um campo, Jerusalém se tornará lugar de ruínas, e a montanha do Templo, uma altura coberta de espinhos” Mq 3,12 – não tenha sido cumprida, eu tinha receio de que a profecia de Zacarias – “Velhos e velhas ainda se sentarão nas praças de Jerusalém” Zc 8,4 – ainda não tinha se cumprido. Agora que a profecia de Uriah se cumpriu, é quase certo que a profecia de Zacarias será realizada” (Makkot 24a).

Neste sentido, nós também, deveríamos rir. Deus foi fiel em trazer sobre nós as maldições, então Ele irá seguramente trazer sobre nós as bênçãos também. Contanto que todas essas coisas ainda não tenham sido cumpridas, alguém poderia dizer que isso acontecerá em tempos longínquos. Mas agora, vendo em nossos dias, maldições que ninguém acreditaria que ocorressem, também as bênçãos seguramente irão ser realizadas.

Mesmo a maldição final, “Lá vos poreis à venda aos teus inimigos como escravos e escravas, mas não haverá comprador” (Dt 28,68) – a qual ninguém acreditaria que pudesse ocorrer – nós testemunhamos há pouco tempo atrás.

DEIXANDO O AMBIENTE PROTEGIDO

Nesta parashá, como em outros lugares da Torah, muitas coisas duras são descritas. Por que é que são necessárias tantas maldições? Por que afinal ameaçar as pessoas com consequências tão terríveis pela desobediência? Por que a Torah não pode sempre falar agradavelmente as coisas?

Vendo como a Torah contudo frequentemente insiste em expressar-se na forma de maldições, aparentemente isto é necessário. Embora a Torah certamente contenha parte de bênçãos, é verdadeiramente difícil ser uma pessoa de fé, e a seção da maldição escrita aqui somente reforça o quanto difícil realmente isso seja. Embora nós compreendamos a igual necessidade de prêmios e punições, ainda é um grande desafio aceitar essa realidade.

Um dos principais objetivos do estudo da Bíblia, é preparar as pessoas para o futuro. Mas enquanto se gasta tempo, horas de estudo em cima de tratados e discussões, alguém mesmo pode não sentir o quão difícil seja realmente ter fé. Em tal ambiente de estudo, lutamos principalmente com sutilezas e nuances da Torah. Existem isso no estudo da Torah lutas maiores, mas os desafios e as tentações enfrentadas por um estudante são incomensuravelmente menores do que as dificuldades lá fora no mundo real. Como resultado, por vezes é duro deixar um ambiente protegido e por isso muitos estudantes evitam deixar esta proteção. Contudo, quando são forçados a sair, por um motivo ou outro, isso se torna um momento de crise perigosa.

Houve um tempo em que os psicólogos desencorajavam os pais a contarem para seus filhos histórias assustadoras. Hoje, no entanto, o oposto é encorajado; a reivindicação é que se as crianças nunca ouviram sobre o lado escuro da vida, elas irão crescer com uma visão distorcida da vida. Se nós as protegermos do mal, contando para elas que o mundo é inteiramente agradável e que tudo nele é bom, elas irão ter dificuldade em lidar com o mundo real quando forem mais velhas.

Morte, por exemplo, é assustadora, e houve sociedades, que distanciavam as crianças de qualquer exposição com ela. Certa vez fui a um funeral e não vi lá ninguém com menos de vinte e três anos; todos tinham evitado trazer seus filhos. Isso é um tentativa de colocar de lado uma realidade que existe.
Uma pessoa como essa que sai de um ambiente protegido e enfrenta a realidade sofrerá uma dura prova a lidar com isso. Numa fase ou outra, todos encontram-se diante de mentiras e enganos, e quando uma criança cresce sob a ilusão de que não existem ladrões e mentirosos no mundo, o resultado pode ser uma crise pessoal maior.

O DESAFIO

Apesar da mensagem da Torah que “Esse mandamento não está lá no céu... Ele não está no além-mar... Porque a Palavra está bem perto de ti: está na tua boca e no teu coração, para que a ponhas em prática” (Dt 30, 12-14), em nosso mundo é duro sermos uma pessoa de fé. A Torah meramente diz que isso é possível, e que a Torah não contém nada que uma pessoa não possa viver de acordo com o que está dito. Mas isso não significa que seja fácil, porque vivemos entre seres humanos e não num ambiente protegido onde quase não exista exposição alguma para uma má inclinação.

Para ter certeza, nossos Sábios nos aconselham que “se este canalha repulsivo (a má inclinação) te confrontar, arraste-o para a Beit Midrash – Casa de Estudo da Bíblia (Sukka 52b), mas algumas vezes nós esquecemos que o canalha esteja conosco no Beit Midrash também. Como o Kotzker Rebbe certa vez lembrou: “este canalha” sugere que exista ainda outro canalha: aquele na Casa de Estudo.

Tudo isso não é para nos assustar. O objetivo das maldições é para nos tornar conscientes que seguir a Torah esta nos apresenta um grande desafio e que quanto mais nós estejamos expostos ao mundo, maior o desafio se torna. É um desafio no qual vem juntas bençãos e maldições. Devemos permanecer firmes diante dessas maldições, subindo para enfrentar o desafio.

Cf. Hb 6,7.8;Tg 3,10; 2Pd 2,14; Ap 22,3; Rm 15,29; 1Pd 3,9.

Por que afinal tantas maldições? Como viver esse desafio diante das “maldições que se cumprem”? É fácil crer “nas bênçãos que virão com certeza”?
Que outras questões surgiram a partir da leitura desses textos? Lembre-se, às vezes as perguntas que fazemos são mais importantes que as respostas que encontramos.